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Como a desigualdade alimenta as mortes por covid-19

13 de julho de 2020

 
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Em artigo publicado pelo portal da Organização Project Syndicate, o Nobel da economia Jeffrey Sachs comenta sobre a resposta de países com grande desigualdade social no combate ao coronavírus.

Confira o artigo na íntegra.

  

Três países – Estados Unidos, Brasil e México – respondem por quase metade (46%) das mortes por covid-19 registradas no mundo e, no entanto, eles contêm apenas 8,6% da população do planeta. Cerca de 60% das mortes na Europa estão concentradas em apenas três países – Itália, Espanha e Reino Unido – que representam 38% da população europeia. Houve muito menos mortes e índices menores de mortalidade na maior parte do Norte e região central da Europa.

Diversos fatores determinam o índice de mortalidade por covid-19 de um país: qualidade das lideranças políticas, coerência da resposta pública, disponibilidade de leitos de hospital, controle de viagens internacionais e estrutura etária da população. No entanto, uma característica estrutural profunda parece estar moldando o papel destes fatores: os salários e a distribuição de renda de cada país.

EUA, Brasil e México têm uma renda muito alta e desigualdade de distribuição. O Banco Mundial registra que, nos últimos anos (2016 a 2018), os respectivos coeficientes de Gini foram de 41,4 nos EUA, 53,5 no Brasil e 45,9 no México. (Em uma escala de 0 a 100, o valor máximo significa desigualdade absoluta, com uma pessoa controlando toda a renda ou riqueza, enquanto zero significa uma distribuição completamente igual por pessoa ou família).

Os EUA têm o maior coeficiente de Gini entre as economias desenvolvidas, enquanto Brasil e México estão entre os países mais desiguais do mundo. Na Europa, a Itália, a Espanha e o Reino Unido – com pontuações de Gini de 35,6, 35,3 e 34,8, respectivamente – são mais desiguais do que seus pares ao Norte e ao Leste, como Finlândia (27,3), Noruega (28,5), Dinamarca (28,5), Áustria (30,3), Polônia (30,5) e Hungria (30,5).

A correlação de mortes por milhão e desigualdade de renda está longe de ser perfeita; outros fatores fazem uma tremenda diferença. A desigualdade da França é comparável à da Alemanha, mas o índice de mortalidade francês é significativamente maior.  O índice de mortalidade na relativamente igualitária Suécia apresenta números muito maiores do que seus vizinhos, porque a Suécia decidiu manter suas políticas de distanciamento social como algo voluntário em vez de obrigatório. A relativamente igualitária Bélgica levou um duro golpe com registros de mortalidade bastante altos, em parte graças à decisão das autoridades de registrar mortes prováveis de covid-19 como causadas pelo vírus, além dos óbitos confirmados.

A alta desigualdade de renda é uma maldição social em muitos sentidos. Como Kate Pickett e Richard Wilkinson registram de maneira convincente em dois livros importantes, The Spirit Level e The Inner Level (em português, O Nível e O Espírito da Igualdade, respectivamente), desigualdade maior leva a piores condições de saúde em geral, o que aumenta de modo significativo a vulnerabilidade às mortes por covid-19.

Não só isso, desigualdade maior leva a uma coesão social menor, menos confiança social e mais polarização política, fatores que afetam de modo negativo a capacidade e prontidão de um governo para adotar medidas firmes de controle. Desigualdade maior significa que uma grande parcela dos trabalhadores de baixa renda – dos faxineiros, caixas, guardas e entregadores aos trabalhadores no setor de limpeza, construção e em fábricas – tem de tocar a vida normalmente, mesmo correndo risco de contágio. Mais desigualdade também significa mais pessoas vivendo em condições apertadas de moradia e, portanto, incapazes de se abrigar em segurança.  

Líderes populistas agravam os enormes custos da desigualdade. O presidente dos EUA, Donald Trump, o do Brasil, Jair Bolsonaro, e o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, foram eleitos por sociedades desiguais e socialmente divididas com o apoio de muitos eleitores da classe trabalhadora insatisfeitos (em geral homens brancos e de baixa instrução rancorosos com o declínio de seu status socioeconômico). Porém, a política do ressentimento é quase o oposto da política do controle de epidemias. A política do ressentimento rejeita especialistas, ridiculariza evidências científicas e se indigna com elites que trabalham online e dizem aos trabalhadores que não podem fazer o mesmo que fiquem em casa.

Os EUA são tão desiguais, politicamente divididos e mal governados por Trump que efetivamente já desistiram de qualquer estratégia nacional coerente para controlar o surto. Todas as responsabilidades foram repassadas para os governos estaduais e municipais, que foram deixados para se virar sozinhos. Em alguns casos, manifestantes de direita fortemente armados atacaram as capitais para se opôr às restrições ao funcionamento do comércio e à mobilidade pessoal. Até mesmo máscaras faciais estão sendo politizadas: Trump se recusa a usá-las, e disse recentemente que algumas pessoas o fazem apenas para expressar sua rejeição a ele. O resultado é que os seguidores de Trump alegremente se recusam a usá-las, e o vírus, que começou nos Estados “azuis” (democratas) da costa, está agora atingindo com força a base de Trump nos Estados “vermelhos” (republicanos).

Brasil e México têm imitado a política americana. Bolsonaro e o presidente do México, Andrés Manuel López Obrador, são os populistas à la Trump por excelência, zombando do vírus, relativizando recomendações de especialistas, fazendo pouco caso dos riscos e recusando abertamente proteção pessoal. Também eles estão levando seus países rumo a um desastre trumpiano.

À exceção do Canadá e de algumas poucas outras regiões, os países da América do Norte e do Sul vêm sendo devastados pelo vírus, porque quase todo o hemisfério ocidental compartilha de um legado de desigualdade maciça e discriminação racial generalizada. Mesmo o bem-governado Chile foi vítima da violência e instabilidade no ano passado, em função de desigualdade elevada e crônica. Este ano, o Chile (ao lado do Brasil, do Equador e do Peru) vem sofrendo com algumas das mais altas taxas de mortalidade por covid-19 no mundo.  

Certamente a desigualdade não é uma sentença de morte. A China é bastante desigual (com uma pontuação de Gini de 38,5), mas seus governos federal e provinciais adotaram medidas rigorosas de controle após o surto inicial em Wuhan, em essência sufocando o vírus. O surto recente em Pequim, após semanas com zero novos casos confirmados, resultou em novos lockdowns e testagem em ampla escala.

Na maioria dos outros países, contudo, estamos mais uma vez testemunhando os custos altos da imensa desigualdade: governança inepta, desconfiança social e uma vasta população de vulneráveis incapaz de se proteger de males invasivos. De modo alarmante, a epidemia em si está ampliando ainda mais as desigualdades.

Hoje os ricos trabalham e prosperam online (a fortuna do fundador da Amazon, Jeff Bezos, aumentou em US$ 49 bilhões desde o início do ano, graças à guinada decisiva para o e-commerce), enquanto os pobres vêm perdendo seus empregos e, em alguns casos, sua saúde e vidas. E é certo que os custos da desigualdade vão aumentar ainda mais, à medida que os governos desidratados de receita cortam orçamentos e serviços públicos essenciais para os pobres.

Mas um ajuste de contas vem aí. Na falta de governos coerentes, capazes e confiáveis que possam implementar uma resposta justa e sustentável à pandemia, além de uma estratégia para a recuperação econômica, o mundo vai sucumbir a novas ondas de instabilidade geradas por um conjunto crescente de crises mundiais.

Tradução de Fabrício Calado Moreira

 

Jeffrey D. Sachs, professor de Desenvolvimento Sustentável e de Políticas e Gerenciamento de Saúde da Universidade de Columbia, é diretor do Centro de Desenvolvimento Sustentável de Columbia e da Rede de Soluções de Desenvolvimento Sustentável (SDSN) da ONU. Ele já atuou como consultor especial para três secretários-gerais da ONU. Seus livros incluem O Fim da Pobreza, Riqueza Comum, A Era do Desenvolvimento Sustentável, Construindo a Nova Economia Americana e, mais recentemente, Uma Nova Política Externa: Além do Excepcionalismo Americano.

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